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NILSON THOMÉ

DE MARIA FUMAÇA - XXXVI

25/07/2012 00h00

  Seu Osvaldo me olhava nos olhos enquanto falava e enquanto charuteava ou cachimbava. Esticou a perna direita por cima de uma cadeira, tirou o sapatão de couro e deixou à mostra o dedão que saía da meia rasgada. Ainda bem que não tinha chulé. Então, continuou sua prosa, aliás, seu monólogo:


- Vendendo comida nas parada do trem e dando pôso pros andante e pros viajante, logo nóis erguemo casa nova, essa casa aqui, onde montei bodega em baixo e ela cuidava do dormitório em cima. Mais um poco e equipamo a bodega pras vendas e aí a italianada e a alemoada dos lote das linha aqui de perto, vinham tudo pra cá. Virô ponto de reunião, inclusive domingueira. E ganhamo mais dinheiro. Foi assim muitos anos pra frente. Vinha muita famia do Rio Grande. Compravam barato terra ruim achando que era boa. Compravam só peral, que era o que tinha nesses morro todo por aí. Sabe como plantavam milho nos morro? Carregavam a taquari com espuleta boa, pórvora vermeia e ao invés de chumbo enchiam o cano com milho de semente. Daí, daqui de baixo davam tiro lá pra cima, semeando a terra com o milho... há!ha!ha!


- Cadê a Dona Adelina, Seu Osvaldo? Não vi ela por aí.


- A finada Adelina faleceu. Foi pouco antes da revolução do Getúlio. Como boa italiana (e como ela era boa, boa até de cama), comia muita polenta. E morreu da polenta. Um dotô que atendeu ela em Queimado [Concórdia], disse que foi a tar doença de pelagra, acho que isso, pelagra. Os colono aqui plantava muito milho. E muito milho, muita farinha de milho – fubá, diziam eles – muita polenta, deu pelagra nela. A gente descuido, ficô sem remédio. Ela se foi. Tinha só trinta e tantos anos. Novinha, novinha. Chorei bastante. Ela tá ali no outro lado da linha, numa sepurtura que fiz pra ela. Como nóis não tivemo filho, fiquei sozinho.


- Minto. Não fiquei sozinho. Comigo ficô o galo, as galinha, os pintinho, um bode véio e um jaguara, cachorro Jaguará, guaipéca, que não prestava pra nada, mas era da estimação da finada. Ele também comia quase só polenta, mas não pegô pelagra, o danado, de ruim que ele era. Mas era da estima da querida Adelina. Ficô ali até morrê de veio, já meio arcado...


  Entre os goles de vinho, arrisquei: - Me conta do Getúlio Vargas, seu Osvaldo. O trem da revolução dele passou por aqui, não foi? O senhor viu?


-Não só, vi, moço, como participei da revolução. Não lembro do dia, mas lembro que foi num otubro de 1930, isso não esqueço. Nunca na minha vida tinha visto tanto trem cheio de milico. Era um trem depois do outro, subindo do Rio Grande. Eles vinham carregado de canhão e metralhadora até a estação de Marcelino e dali baldiavam de máquina e passavam aqui. Por causa de um tar de controle, eles parava na outra linha e uns passava na frente do outro, dependia da carga. Tinha cada canhão!!!


- Pois é, moço, foi assim durante um tempão. Na metade do meis de otubro subiu um trem, que tinha vindo lá de Santa Maria da Boca do Monte. Ele veio calminho, desde lá, fazendo uíbo-uíbo pela várvula da chaminé. Não tinha nada na linha pra segurá o trem. Tinha um tar de general João Francisco e sua tropa lá de Porto Alegre garantindo a passagem do trem na ponte do Pelotas. Conheci aqui mesmo na Vorta Grande esse general e um outro graduado importante, me parece que era coroné, chamava Leônidas, era dos Coelho de Souza lá do seu Caçadô. Muito elegante ele, gente fina. Educado que só ele. De origem, era engenheiro agrícola e naquele tempo mandava numa tropa de uns quatrocento sordado, na verdade era tudo civil paisano, mas usando farda cáqui e fuzir da Fôrça, que tinha vindo com ele, tudo recrutado lá nas banda de São João, dos Calmon, do Caçadô e de Rio das Antas, pra reforçá a revolução.


  Seu Osvaldo me contou que uma das tarefas do batalhão comandando pelo então Tenente-Coronel Leônidas Coelho de Souza foi guarnecer o túnel da estrada de ferro, em Pinheiro Preto, aquele túnel que ele quase ajudara a construir em 1909. Disse que, se alguém explodisse o túnel, fechava a passagem dos trens dos revolucionários e toda a revolução que começara nas terras gaúchas iria para a cucuia.


- O trem com o Seu Getúlio tinha saído de manhã do Marcelino e parô aqui na estação da Vorta Grande umas duas hora, sei lá porque. Num dos vagão tinha esse Getúlio Vargas dentro. Baixinho simpático. Aí, um dos milico que cuidava dele veio até aqui na bodega, entrou por aquela porta ali, e pediu uma gazosa (com z), que tinha que ser daquelas bem fechada com tampinha. Vendi, ele pagô direitinho e levou a garrafa pro seu Getúlio, que tava na janela do vagão. Ele olhô pra eu e fez aceno com a mão. De vorta, educado, eu abanei também. Se a patroa Adelina tivesse viva teria servido cueca virada pra ele. Não a minha cueca, entenda bem, por favor. Cueca virada é o mesmo que cróstoli, um biscoito de sal e açúcre com canela em pó, entende? Ela fazia tão bem... Viu? Foi aí e assim que eu participei da revolução dos trinta. Fiquei muito contente e com orgúio sempre conto dessa minha participação revolucionária pros ôtro...


  Fiquei, como diríamos, e-s-t-u-p-e-f-a-t-o com a narrativa “singela” do Seu Osvaldo. Grande participação! Nem pegou em armas. Não deu um tirinho sequer. Nem só de espoleta. Nadinha. Só vendeu uma gazosa (sempre com “z”) para o futuro ditador do Brasil. Foi tudo e só isso. Mas, tudo bem. Se isso para ele foi importante, legal, que fosse e que seja. Viva o Getúlio!


(continua)

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