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NILSON THOMÉ

DE MARIA FUMAÇA - XXXVIII

08/08/2012 00h00

  O pangaré troteou pela margem dos trilhos até a casa do seu Tonho que, para variar, desde cedo estava numa cadeira inclinada até a parede, na varanda da casa, pernas esticadas e pés sem meias sobre um banquinho de madeira. No chão, as botinas. Parecia estar me esperando. E estava. Esperava eu e o pagamento pelo aluguel do cavalo. Quando me viu, faceiro, coçou a orelha e lançou o convite:


- Te achega, moço! Venha pra cá. Tenho um mate amarguinho aqui. Quer uma cuia?



- Bom dia seu Tonho – respondi, apeando e avançando desordenado sobre aquela cuia cor de cuia, cheia de espumante erva verdinha com água quente, que ele oferecia de bom grado. Meu Deus, tem coisa melhor?


  Interessante: ele não me perguntou como fora minha incursão à Volta Grande, meus papos com seu Osvaldo... nada. Não perguntou nada. Eu é que tomei a dianteira e contei algumas passadas para ele. Pois agora eu estava à vontade ali na casa, tirei meu cebolão do bolso e antes de dar corda espiei as horas – passado das sete – hora de bom tamanho, pois assim eu tinha tempo até o tempo do trem. Pressa? Pra que pressa? E jogando papo fora, sem compromisso, a gente tomou ali umas boas cuiadas de chimarrão, da erva da boa, o que tava bão demais.


  Me despedi do seu Tonho e tomei o rumo da ponte, que passei pé por pé, dormente por dormente, sempre de olho na água que corria por baixo. Era uma ponte todinha de ferro, para trem, mesmo. Da cabeceira sul da ponte até a estação de Marcelino, mais uns 500 metros na beira dos trilhos sempre passo a passo e dali, cruzei os trilhos, subi pela plataforma, desci pelo outro lado e me mandei escada acima até o Grande Hotel.


  Na frente, varrendo a calçada, estava o Seu Dobrowolski, sempre faceiro. Na soleira da porta principal, pé pra dentro, pé pra fora, Dona Maria, enxaguando pano em balde. Quando me viram, ambos sorriram. Interessante o sorriso igual, estampado na carinha de inocentes, de cada um deles. Me pareceu sorriso amarelo! Ou seria vermelho? Era um sorriso aquém de uma risadinha... tipo aquele que enseja algum falar, mas a pessoa não fala e ao invés de falar, sorri de novo. Mas, que diabos!


- Bom dia, Dona Maria, bom dia, Seu Dobrowolski – me ensaiei de animado – estou voltando agorinha mesmo da Volta Grande e neste mesmo agorinha vim acertar minha conta pois que pego o trem às onze e meia...


- Entra, moço, a casa é sua – respondeu a dona do hotel, acrescentando: – Vai ali na sala que tem alguém lhe esperando! Chegou agorinha de manhã! Dito isso, me deixou passar pela porta, continuando a mostrar aquele amarelado (e bem malandro) sorriso.


  Pois entrei, passei pelo corredor, curioso, adentrei no salão, e... quase caí discostas com o que vi.


  Era ela, a minha musa do trem na vinda a Marcelino, a donzela que havia me encantado e que eu não soube sequer cantar, durante a viagem e depois da viagem, no quarto deste hotel. Estava sentada no sofá, de frente para a mesinha onde repousava uma xícara de chá preto da Índia e de lado para mim. Por isso não me viu na porta, mas eu via, sim, ela de perfil. E por este ângulo ela mostrava ainda mais ser tão linda quanto de frente, traços formosos a esquadrinhar a face na perspectiva de uma bela paisagem de um pinhal com frondosos pinheiros pintado num quadro da sala, que agora lhe servia de pano de fundo.


  Passaram-se alguns intermináveis e rápidos segundos de relógio, mas foram alguns esplendorosos segundos do tic-tac – ou uma eternidade – até que ela se virou e me viu. E o que ela estava vendo? Eu? o de antes e agora nada mais que um cara meio que curando um porre de vinho tinto de colônia, cansado de uma longa e cansativa cavalgada acumulada por caminhada, desejoso de um banho e de recuperar forçar para embarcar no trem e voltar pra casa... isso é o que ela deveria estar vendo...


Porém...


 


(continua)

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